
Presidente do Conselho Nacional da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), Ana Cláudia Badra Cotait. Crédito: Daniel Fagundes/Trilux
Para muitas empreendedoras, a falta de capital para investir é um ponto determinante entre continuar ou desistir de um negócio. Para a presidente do Conselho Nacional da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), vinculado à Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), Ana Cláudia Badra Cotait, esse cenário é agravado pela falta de acesso ao crédito para mulheres, combinada com altas taxas de juros para elas.
“Estudos apontam que apenas uma parcela reduzida dos recursos destinados a pequenos negócios chega às mulheres, algo em torno de 25%, enquanto existem muitas linhas que beneficiam majoritariamente os homens”, relata a presidente do CMEC. “Essa diferença significa menos capital para investimentos, estoque e profissionalização das empresas lideradas por mulheres”, afirma.
Outro problema são as taxas de juros mais altas cobradas das empreendedoras. “Pesquisas apontam que empresárias, especialmente as microempreendedoras, chegam a pagar taxas médias efetivas superiores às dos homens, reduzindo ainda mais a viabilidade financeira de expansão dos seus negócios. Essa diferença agrava desigualdades já existentes e aumenta o risco de endividamento e de fechamento prematuro”, reforçou Ana Cláudia. “Se você for no banco tirar um empréstimo, a mulher e o marido, a mulher vai pagar o juro mais alto que o homem. Isso é um absurdo!”, alerta.
Dos desafios enfrentados pelas mulheres, a presidente do CMEC destaca também a dupla ou tripla jornada de trabalho, as desigualdades de gênero e raciais, estereótipos associados à mulher, a falta de apoio da família, os desafios da maternidade – especialmente quando são mães solo -, entre outros.
CMEC
Ana Cláudia conta que sua caminhada, que a levou a presidir o CMEC, é fruto de uma jornada iniciada há muito tempo, e que conta com a inspiração da sua mãe. “Minha trajetória, na verdade, é muito inspirada pela minha mãe, uma mulher muito à frente do tempo. Eu sempre olhei a minha mãe como uma pessoa muito forte”, diz Ana Cláudia.
Servidora aposentada do Senado Federal, a presidente do CMEC conta que trabalhou por 34 anos como funcionária de carreira. “E hoje, com esse trabalho que eu faço, vejo como eu fui empreendedora no Senado”, avalia.
“No Senado, eu agreguei a cultura à minha vida de funcionária pública. Nos projetos, eu criei as exposições, lançamentos de livro, a participação do Senado Federal nas feiras de livro. E aí eu vejo como eu fui empreendedora, como eu realizei tanta coisa ao longo desses 34 anos como servidora”, relembra Ana Cláudia.
A presidente da CMEC conta que, quando começou na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), existia uma cultura assistencialista no conselho. Diante disso, propôs mudanças. “Ou eu mudava o conselho para uma coisa empreendedora, que realmente eu chegasse à ponta e ajudasse as mulheres a empreender, ou não valia a pena entrar nesse processo”.
A proposta de mudança gerou resultados, como a expansão da rede. “Hoje, nós estamos com mais de 950 conselhos no Brasil, quase 1000”, comemora. Ana Cláudia. Ela conta que quando assumiu, havia 18 conselhos no estado de São Paulo e outros sete conselhos estaduais.
Para ela, as mulheres precisam de políticas públicas específicas para driblar as dificuldades. “Esse trabalho que a gente faz realmente é muito político. E a gente atua em prol de políticas públicas para as mulheres”, defende a presidente do CMEC, que reforça o papel do conselho na busca por geração de emprego e renda, fortalecimento do associativismo, respeito aos contratos e liberdade para empreender.
Dicas para empreender
Para estruturar um negócio, Ana Cláudia recomenda a formalização dos negócios, que é um dos passos importantes para ampliar oportunidades, além de investimento em capacitação.
“Eu acho que aí você puxa o gancho da qualidade do produto, porque aí ela tem que ter uma qualidade de excelência para poder atuar no mercado. Então, esses processos eu acho extremamente importantes: a formalização e a capacitação”, aconselha.
Ela ressalta que as mulheres estudam mais que os homens, são mais diplomáticas e que, quando ocupa um cargo de liderança, é mais sensível no trato com as pessoas. “Eu acho que a mulher tem esse lado que é peculiar, mas ela tá tem que estar sempre provando a capacidade”. Outro ponto essencial: ser gestora do próprio negócio e saber administrar as finanças do empreendimento.
Ana Cláudia acredita também na conectividade e no networking entre mulheres como forma de impulsionar os negócios locais.
Por último e não menos importante: amar o que faz. “É fundamental para uma mulher fazer o trabalho com amor, com paixão. Porque a mulher apaixonada pelo que faz, ela faz qualquer coisa para dar certo”, finaliza.
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