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“A inovação é tema prioritário”, diz novo presidente da Federasul

Anderson Trautman Cardoso afirma que "desenvolvimento sustentável" do RS passa por avanços nessa área

14 de janeiro de 2021 - 20:13

Foto: Marcelo Justo/Valor

Anderson Trautman Cardoso, 43 anos, assume a presidência da Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande Sul (Federasul) em meio aos desafios impostos pela pandemia de coronavírus na área econômica. Eleito para o biênio de 2021 e 2022, o especialista em Direito Tributário relata que o estímulo à inovação será foco da gestão da entidade empresarial que reúne 160 filiadas. Segundo ele, o “desenvolvimento sustentável” do Rio Grande do Sul passa por avanços nessa área.

Em entrevista a GZH, Cardoso também avalia que 2021 deve ser um período de “transição” na economia. É que, além da covid-19, o país e o estado têm de encarar as dificuldades nas finanças públicas. Nesse sentido, o líder empresarial entende que a agenda de reformas e privatizações precisa ser retomada.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista.

Como têm sido os primeiros dias na presidência da Federasul?

Atuo na entidade há cerca de 20 anos. Para mim, é uma satisfação grande assumir a presidência. Muda pouco, porque integrei a diretoria desde 2001. A posição muda, mas o objetivo é dar continuidade ao trabalho que vinha sendo feito. O time segue com o mesmo propósito, que é contribuir para o desenvolvimento do estado. O ano começa agitado, mas dentro da expectativa.

Quais serão os pilares de sua gestão na entidade?

Com certeza, posso destacar a inovação. É um tema prioritário, porque contribui para o desenvolvimento sustentável do Estado. Vimos o quão importante foi a inovação ao longo de 2020, quando fomos surpreendidos pela pandemia. Os negócios mais ágeis, que inovaram mais, conseguiram passar melhor por este período. Olhar para a transformação digital, para startups, é foco da nossa gestão. É importante que as empresas possam utilizar essas ferramentas. E é fundamental que a entidade também pratique isso, com a digitalização de processos, para haver maior conexão com as filiadas, disseminação de conhecimento e oportunidades de negócios. Uma nova divisão que a entidade vai ter é a de inovação. A ideia é a construção de uma plataforma, se possível, até o segundo semestre, para utilização das nossas filiadas e das empresas conectadas ao sistema da Federasul.

A plataforma vai servir para troca de informações sobre inovação?

O grande valor da entidade é a capilaridade. Agora, a capilaridade também traz um distanciamento físico, porque atuamos em vários municípios, com várias filiadas, associações comerciais e câmaras de indústria e comércio. A tecnologia nos apresenta uma ferramenta para termos uma conexão maior. A ideia é permitir disseminação de conhecimento, com a possibilidade de setorizar informações. Por exemplo, temos um grande evento, o Tá na Mesa, que perpassa por temas como inovação e sustentabilidade. À medida que a gente consiga disponibilizar isso de maneira setorizada, ou por tópicos, a plataforma vira um portal de conhecimento. O empreendedor terá à disposição alguém qualificado para analisar a situação. Disponibilizar isso para o empresariado contribui para a mudança de mindset (mentalidade), mais digital.

Seria, então, uma plataforma focada em disseminação de conteúdos e conhecimento?

Isso. E para disseminação de oportunidades. A primeira etapa é conectar todo esse grupo. É permitir que todas as filiadas tenham conexão na plataforma. Pensamos no futuro, em oportunidades de parcerias com outros ecossistemas que podem surgir, inclusive no que tange à geração de dados. Poderemos ter dados disponibilizados a partir de pesquisas de entidades de forma mais rápida e efetiva. É uma entrada da Federasul na nova economia, na economia digital.

Durante a pandemia, houve corrida por avanços tecnológicos em setores como o varejo. Grandes redes mergulharam nisso para conseguir vender. A competição com grandes redes assusta de alguma forma negócios de menor porte representados pela Federasul?

É uma pergunta muito interessante. Ao mesmo tempo em que os grandes crescem, vemos um volume de startups crescendo. São pequenas empresas com potencial de crescimento acelerado. O que é comum entre os grandes e os pequenos negócios? É a busca pela inovação. Inovação não é só tecnologia. Tudo isso foi acelerado em 2020. A pressão da pandemia provocou otimização de processos internos nas empresas. O que pretendemos fazer é disseminar ações, fazer com que as empresas possam usar isso de forma mais efetiva no seu dia a dia. A ideia é compartilhar experiências, não só das grandes redes, também das pequenas empresas. Temos inúmeros exemplos de pequenos negócios na área de inovação. Não vejo dualidade nisso. É natural termos grandes players, mas os pequenos têm a sua força. Por isso, a entidade quer se voltar muito a startups. A transformação vem como cerne, é o fator principal. A ideia é contribuir com a inovação nas diferentes áreas, das grandes até as pequenas empresas.

Conforme a Abstartups, associação que representa startups no Brasil, o Rio Grande do Sul tem o terceiro maior número de negócios desse gênero no país. Só fica atrás de São Paulo e Minas Gerais. Na sua avaliação, o Estado tem potencial para startups em quais áreas?

O Rio Grande do Sul tem se posicionado muito bem em diferentes setores. Um segmento fundamental é o agronegócio. É natural pensar em vincular tecnologia com o setor para ganharmos em escala. Isso tem sido feito. Olharemos para o agro. Teremos divisão focada nesse setor. É fundamental para nossa economia, para o desenvolvimento. Temos também os setores de saúde, de educação. Não setorizaria em termos de startups, mas, sim, em termos de oportunidades. As oportunidades surgem nos mais diversos setores. Mas, sem dúvidas, o agronegócio é um segmento em que certamente as startups têm muito a contribuir.

Como descreve o cenário para a economia em 2021? Há otimismo ou existe receio devido à pandemia?

É uma pergunta difícil. Mas, na avaliação do final do ano passado, respondemos (a Federasul) que há otimismo moderado. Vejo um problema importante, um desafio a ser enfrentado, que é o déficit público federal. O rombo de 2020 foi impactante. Estimamos para este ano um déficit de mais de R$ 200 bilhões. Então, é fundamental colocar na pauta não só o debate, mas, também, a aprovação de reformas. A administrativa, para diminuir custo do Estado, a tributária, para reduzir a burocracia e o custo de transações. Esse é o caminho para o país gerar mais negócios. O Brasil precisa de produtividade para se desenvolver. Para isso, é fundamental o enfrentamento das reformas. O otimismo é moderado porque temos a pandemia. Vejo 2021 como um ano de transição, e não de superação da pandemia. Estamos vendo a dificuldade no plano nacional de vacinação. Sabemos das dificuldades de aquisição de insumos e de logística para chegar a toda a população. Temos uma população numerosa. Vejo 2021 como um ano de transição na pandemia, muito melhor do que 2020, mas com muitos desafios que precisam ser superados.

E qual é a avaliação sobre o cenário para a economia gaúcha?

Temos um desafio grande ainda, que é fazer a economia retomar. Entendemos que a redução da carga tributária seria um ativo para isso. Infelizmente, não conseguimos nos patamares adequados, mas tivemos um bom debate. Não tivemos a prorrogação por quatro anos das alíquotas majoradas de ICMS. Entendemos que há bons elementos para recuperarmos nossa produtividade. É disso que precisamos para tornarmos o Rio Grande do Sul um Estado atrativo para o investidor. Vimos nos últimos anos, com as alíquotas majoradas de ICMS, empreendimentos saindo do Estado. Esperamos que, com as reformas do governo estadual, não precisemos mais de carga tributária elevada.

No debate sobre a reforma tributária no Estado, em 2020, a Federasul teve protagonismo, marcando posição contrária. A entidade continuará emitindo posição a respeito de temas como esse?

Sem dúvida. Entendo que a bandeira da Federasul é a competitividade do Estado. Antes da elevação de impostos, acreditamos que é preciso melhorar a qualidade do gasto público. Temos uma longa lição de casa a fazer, com privatizações, reforma previdenciária dos militares, teto de gastos públicos, a questão do duodécimo. São temas que têm de ser enfrentados antes de alguma elevação de carga tributária. Temos o mesmo objetivo do governo do Estado, que é ver o Rio Grande do Sul se desenvolvendo. Mas esse desenvolvimento, na nossa visão, não virá extraindo riquezas do setor privado para o público. Isso inibe a geração de empregos e renda. É a crença da entidade. Com geração de riqueza, geraremos mais postos de trabalho, mais arrecadação para o Estado, mais condições para fazer frente ao déficit público.

Como analisa a condução das políticas para amenizar os impactos da covid-19 no país e no Estado, tanto na área da saúde quanto na econômica?

A entidade participou do debate desde o início no Estado. Óbvio, a vida é o fator principal, mas, para preservá-la, precisamos da atividade econômica. Lá no início, antes de o governo implementar a política regional, fomos a primeira entidade a defender isso. Em março, havia uma política de fechamento. Levantamos a bandeira de que não deveria haver o fechamento total. Depois do diálogo, o governo foi feliz na política de bandeiras, mas entendo que há ajustes que devem ser feitos de acordo com a evolução do assunto. Por exemplo, agora, no período de retomada, temos de olhar para o tema com outra perspectiva. Alguns insumos que faltaram no país geraram inflação. Precisamos de olhar de longo prazo. O governo federal tinha mecanismos de enfrentamento à crise em 2020, como o auxílio emergencial e o auxílio aos Estados. Mas, a partir de agora, precisamos ver como vamos sair da situação de déficit crescente. As ações adotadas eram emergenciais e necessárias, mas não vão se apresentar como alternativas para o futuro. Como olhamos para o futuro? Com geração de emprego e renda. Como geramos emprego e renda? Passando pela questão das reformas. As reformas administrativas e tributárias se tornam ainda mais essenciais. É sob essa perspectiva que falo de um ano de transição. Será um ano em que teremos a vacina, não em total escala. E teremos uma retomada, espero que sem lockdown.

Fonte: Zero Hora

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