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Renda dos trabalhadores tem queda recorde, freia consumo e limita retomada

Tombo de 15% no rendimento entre fevereiro e junho significou R$ 34 bilhões a menos na economia no período

31 de agosto de 2020 - 09:45

Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

Os ganhos com o trabalho, que representam cerca de 70% do orçamento das famílias, estão em queda livre. A soma dos rendimentos de todos os trabalhadores teve queda recorde nos últimos 12 meses e foi concentrada no período da pandemia: entre fevereiro e junho, houve recuo de 15,4% da massa salarial, já descontada a inflação. Isso representou menos R$ 34 bilhões na economia nesses quatro meses.

Menos dinheiro circulando indica um freio no potencial de consumo do país, o que pode tornar a recuperação da economia ainda mais lenta do que se esperava. Como o investimento deve demorar mais a reagir, diante da falta de recursos do governo para investir e da incerteza que paralisa os projetos privados, especialistas esperam que a retomada venha primeiro pelo consumo. Mas com a renda do trabalhador em queda, consumidores pensarão duas vezes antes de gastar.

Segundo levantamento do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcos Hecksher, o recuo inédito da renda total disponível foi causado tanto por corte de salário, em acordos de redução de jornada, quanto pelas demissões naqueles quatro meses. O rendimento médio do trabalhador ficou 3,8% menor no período, e o número de pessoas ocupadas recuou 12,1%.

Parte da perda dos recursos obtidos com trabalho tem sido compensada pelo auxílio emergencial, que alcançou 65 milhões de pessoas. Mas o problema é que se trata de um benefício transitório.

— A renda do trabalho caiu muito, a renda total (quando se incluem outras fontes de recursos) só não diminuiu por causa do auxílio. Com o fim dele e dos benefícios para manutenção do emprego, não vai ter geração de vagas para todas essas pessoas — diz Hecksher.

Fim do auxílio

Nos últimos 12 meses, a soma de renda do trabalhador teve tombo de 15,3%, maior queda da série histórica do IBGE, iniciada em 2012. Desde março, a retração bate recorde mês a mês. Números mostram que há alguma recuperação recente: a renda total somou R$ 225,9 bilhões em fevereiro, caiu para R$ 187,9 bilhões em abril e subiu para R$ 191 bilhões em junho.

— Mas esses números não refletem uma retomada e, sim, o não respeito às políticas de isolamento — diz o pesquisador da USP Rogério Barbosa.

Até agora, o auxílio emergencial ajudou a melhorar as previsões para o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, cujo resultado será divulgado amanhã pelo IBGE. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, por exemplo, esperava queda de 19,6% no segundo trimestre — ante igual período do ano passado — e revisou a estimativa para recuo de 11,7%. Ainda assim, a queda seria um tombo nunca antes registrado.

— Estamos prevendo 13 milhões de desempregados a mais no fim deste ano do que em 2019. Quando acabar o efeito do auxílio, vai ter piora no consumo, no comércio e no varejo — diz Vale.

Silvia Matos, economista da FGV, já considera a retração dos rendimentos em 2021. Prevê queda de 5% no volume de recursos das famílias no ano que vem:

— Essa massa de rendimentos ampliada, que junta todos ganhos, responde por 75% do consumo das famílias. Não vejo o setor de serviços gerando renda do trabalho para compensar a perda do benefício.

O desemprego será de fato o maior desafio da retomada, na avaliação de especialistas. Não bastasse o fechamento de mais de 11 milhões de vagas de fevereiro a junho, segundo cálculos de Hecksher, os desempregados enfrentam uma barreira digital. Boa parte das empresas está fechada, com as instâncias de decisão em home office.

Vagas temporárias

O desemprego afetou principalmente os que trabalhavam sem carteira assinada. Dados do segundo trimestre também mostram que os jovens entre 18 e 24 anos foram os mais atingidos.

Enquanto o nível de ocupação — a parcela da população de 14 anos ou mais empregada — para a população em geral caiu 6,7 pontos percentuais em relação ao segundo trimestre de 2019, para essa faixa de jovens, a queda chegou a 9,6 pontos percentuais: de 51,8% para 42,8%.

André Vicente, CEO da Adecco do Brasil, consultoria de recursos humanos que atua em 60 países, afirmou que, no Brasil, a oferta de vagas efetivas caiu à metade a partir de março, e as vagas temporárias diminuíram 70%.

Hecksher propõe que, para ampliar a oferta de vagas, sejam implementadas jornadas de trabalho mais curtas que as 40 horas semanais, com isenção de recolhimento da alíquota do INSS. Isso permitiria a criação de 4,6 milhões de postos de trabalho.

Mas Vicente acredita que o mercado de trabalho só voltará ao nível pré-pandemia, em todo o mundo, num período de três a seis meses após a aprovação de uma vacina.

Fonte: O Globo

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