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Aumenta número de países com juros negativos

Crise leva BCs a cortarem taxas. Há US$ 6 tri em títulos com rentabilidade negativa

10 de fevereiro de 2016 - 15:43
Ladeira abaixo. Painel com cotações em corretora de Tóquio. Principal Bolsa do Japão recuou 5,4% ontem. O título de dez anos do governo japonês pagou juro de -0,035% - Foto: YUYA SHINO/REUTERS

Ladeira abaixo. Painel com cotações em corretora de Tóquio. Principal Bolsa do Japão recuou 5,4% ontem. O título de dez anos do governo japonês pagou juro de -0,035% – Foto: YUYA SHINO/REUTERS

RIO, WASHINGTON E TÓQUIO – Com apenas 40 dias, o ano de 2016 já provocou uma reviravolta nos mercados globais. Nova turbulência na China, a queda do preço do petróleo para menos de US$ 30 e a apreciação das moedas internacionais frente ao dólar mexeram com as Bolsas e renovaram temores sobre o crescimento global. A resposta das autoridades foi numa direção que parecia ter ficado para trás, com políticas monetárias cada vez mais expansionistas, o que levou o planeta a uma situação pouco usual de ter vários países ricos praticando juros negativos em muitos de seus títulos de dívida pública. Ou seja, o investidor que emprestar dinheiro a esses governos receberá no futuro menos do que aplicou. Ontem, pela primeira vez na História, um título de longo prazo de um país do G-7 ofereceu rentabilidade negativa: os bônus de dez anos do governo japonês foram negociados por -0,035%.

E o Japão não está sozinho. Também praticam juros negativos em alguns de seus títulos ou como taxa principal de referência o Banco Central Europeu (BCE), o BC da Suécia, da Suíça e da Dinamarca. Segundo a cálculos do J.P. Morgan, há hoje cerca de US$ 6 trilhões em títulos públicos com juros negativos. Esse montante dobrou em apenas dois meses. E, há um ano e meio, não havia nenhum bônus de dívida soberana com rentabilidade abaixo de zero.

Dos Estados Unidos à Austrália, passando pelo Canadá, os países ricos que ainda têm juros no terreno positivo estão recorrendo a novos estímulos monetários ou adiando a elevação de suas taxas.

— Vivemos uma nova onda expansionista. Quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) aumentou os juros, parecia o início da reversão da era do dinheiro barato no mundo, mas parece que essa era pode ter sobrevida. Os acontecimentos do início do ano acenderam a luz vermelha nos bancos centrais, que se viram na obrigação de dar um suporte à economia — afirma o economista da Tendências Consultoria Silvio Campos Neto, responsável pelo acompanhamento da economia internacional.

A turbulência na China foi o principal motivo para a mudança de cenário, apontam especialistas. Ainda que houvesse um clima de incerteza em relação ao crescimento chinês, a volatilidade das Bolsas intensificou a preocupação com o chamado hard landing, ou pouso forçado da economia chinesa. Ao mesmo tempo, os preços do petróleo chegaram a cair abaixo dos US$ 30, após uma média de US$ 53,61 (do tipo Brent, referência do mercado mundial) em 2015. O baixo nível da commodity pressiona para baixo a inflação nos países ricos, elevando o risco de deflação. A perda das Bolsas mundiais chegou a quase US$ 6 trilhões no primeiro mês do ano.

— O começo do ano foi marcado pela volatilidade nos mercados internacionais por causa da China e as fortes quedas do preço do petróleo ganharam destaque. Ao mesmo tempo, as moedas se depreciaram fortemente em relação ao dólar, e há uma fuga de capitais em busca de mercados mais seguros. Com isso, começamos a ver a reação das autoridades monetárias, preocupadas com o possível impacto do mercado financeiro na economia real, principalmente pelo aumento do custo do crédito. De novo, os bancos centrais reagiram com mais expansão monetária — explica o economista da MCM Consultores Antonio Madeira.

Durante o feriado do carnaval no Brasil, as Bolsas globais não tiveram trégua e sofreram dois dias seguidos de queda. Na Europa, as perdas foram maiores, em meio a preocupações com a solidez financeira dos bancos. A Bolsa de Londres recuou 1% ontem, após ter caído 2,7% na véspera. Em Frankfurt, a queda foi de 1,58%, após perdas de 3,3% na segunda-feira. As ações do Deutsche Bank, maior banco da Alemanha, caíram mais 4% ontem e, no ano, já acumulam perdas de 40%. O ministro das finanças alemão Wolfgang Schäuble e o co-presidente do banco, John Cryan, tentaram minimizar os temores do mercado. Schäuble disse que não “havia preocupações” com o Deutsche, enquanto Cryan garantiu que o banco é “sólido como uma rocha”.

BOLSAS DESPENCAM

A Bolsa de Tóquio caiu 5,4%, o maior tombo em quase três anos, em meio a busca dos investidores por títulos seguros — o que provocou, como efeito colateral, a forte redução dos juros pagos pelos bônus da dívida pública japonesa. As Bolsas americanas fecharam ontem quase estáveis, porém, em dois dias, o Dow Jones acumulou perdas de 2,42%. O petróleo teve forte queda, de 7,79%, para US$ 30,32 o barril do tipo Brent.

No dia 29 de janeiro, o Banco Central do Japão surpreendeu o mercado ao anunciar taxa de juros negativas no país e deixou em aberto a possibilidade de novas reduções, em mais uma tentativa de estimular a economia e combater a deflação. Antes disso, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, afirmou que o cenário para a inflação tinha piorado e poderia recorrer a novos estímulos. Na Inglaterra, as previsões para uma nova alta de juros foi adiada do fim deste ano para 2018. A expectativa na Austrália é que a autoridade monetária recorra a um corte de juros em algum momento do ano, para um novo recorde de baixa. E, nos EUA, parte dos analistas já prevê que a o Federal Reserve (Fed) não vá elevar mais os juros este ano. A presidente do Fed, Janet Yellen, fará um pronunciamento no Congresso hoje, que deverá ser acompanhado com lupa pelos mercados.

Já o Banco Central brasileiro decidiu manter a taxa de juros na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), citando incertezas no mercado internacional e doméstico. No caso brasileiro, no entanto, analistas dizem que o contexto é diferente, com desequilíbrios que vão além do cenário global.

— Sem dúvida, os bancos centrais dos países ricos mudaram de posição. Hoje, se pudesse, o Federal Reserve voltaria atrás em sua decisão de aumentar os juros. Os bancos centrais ficaram mais cautelosos com o que pode acontecer com a segunda maior economia do mundo, se a transição do modelo de crescimento chinês pode ser feita de forma organizada ou não — diz o professor da FEA/USP Simão Davi Silber.

Segundo ele, a situação da política monetária no Brasil é diferente, mas o banco central fez a coisa certa em mudar de postura, embora de forma “desastrosa”. Ele lembra que as projeções são de uma nova recessão perto de 4% em 2016, nível semelhante ao de 2015.

Na avaliação do professor do Instituto de Economia da UFRJ Luiz Carlos Prado, o que se vê neste início do ano não é exatamente uma retomada das políticas monetárias expansionistas. Ele admite que há mais cautela entre os bancos centrais, mas o que ocorre é que a expectativa de reversão que existia não se confirmou:

— A política monetária frouxa é mais um sintoma que uma causa. É uma resposta ao pouco dinamismo da economia. A economia mundial está sem fôlego, com muito pouco vigor.

O elevado endividamento das famílias, das empresas e dos governos é apontado por analistas como uma das principais razões para o ritmo fraco da economia mundial, consequência ainda da crise financeira internacional de 2008. Com dívidas ainda elevadas, sobra menos espaço para consumo, investimentos e gastos públicos, que ajudariam na recuperação da economia. Antonio Madeira afirma que “as sequelas de 2008 foram muito fortes”, e que os bancos centrais precisam enfrentar “ventos contrários” para cumprir seu trabalho:

— Dois ventos contrários atrapalham o trabalho dos bancos centrais. De um lado, há a reestruturação patrimonial das famílias, empresas e governos. Para reduzir o endividamento, cortam compras e gastos públicos, adiam investimentos, o que afeta a economia. Ao mesmo tempo, o saneamento dos bancos os tornou mais cautelosos. Os padrões para emprestar ficaram mais elevados.

DESIGUALDADE DE RENDA

No caso dos EUA, diz Luiz Carlos Prado, há outro fator que dificulta a recuperação da economia via consumo, que é a piora da desigualdade de renda:

— A participação dos mais ricos no total da renda aumentou, o que mexe com a estrutura da demanda. Só que os mais ricos não consomem tanto, em conjunto, quanto os mais pobres, que só tem como consumir mais através de endividamento.

Para Silvio Campos Neto, há um excesso de capacidade produtiva no mundo:

— O fato de a inflação estar muito baixa é um sinal de anomalia e de lentidão na retomada da demanda.

Um dos riscos da política monetária expansionista é a criação de bolhas. Isso porque, com taxas de juros baixas, os investidores vão em busca de alternativas de investimento que possam dar retorno maior. Assim, alguns setores podem receber volume significativo de recursos. Mas analistas minimizam esse risco no momento.

— Hoje, na leitura do mercado, não tem um grande candidato para virar uma bolha, esse dinheiro pode ficar represado — diz o economista da Tendências Consultoria.

Fonte: O Globo

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