:: Mesa Posta

                                                                                   Churrasco liberal

                                                                                                 Por CLEONILSON ALVES DA SILVA*


Deixemos de lado a armadilha sobre quem inventou o churrasco, é trabalho para antropólogos, sociólogos e demais pesquisadores da origem do homem. No entanto, pode-se dizer que, desde o período Paleolítico, quando os alimentos passaram a ser assados, estava inventado o churrasco. Embora se mantenha intacta sua essência original – espeto, carne e braseiro –, se compararmos com o requinte dos churrascos de hoje, servidos em casas especializadas, era uma forma extremamente rude de alimentação.
Aqui, no Brasil, ele foi introduzido pelo Sul, nos pampas gaúchos (área que abrange parte do Brasil, Uruguai e Argentina), até se disseminar pelo país e se transformar numa das mais apreciadas formas de se comer – e bem. Os já tradicionais “rodízios” surgiram no Rio Grande do Sul em meados da década de 1960, em beiras de estrada, freqüentado basicamente por caminhoneiros; a quem se atribuem a disseminação da novidade pelo restante do Brasil. Paralelamente aos tradicionais cortes de carne de boi, foram incorporados também carnes de frango, porco e, atualmente, outros tipos de carnes como javali, jacaré, só para ficar nestes.
As atuais casas de “rodízios” acabaram se transformando em verdadeiros templos de prazeres, com suas variedades de cortes e carnes, e estão aí mesmo (e também em alguns países), para tirar as dúvidas dos incréus. Hoje, é comum brasileiros, visitantes ilustres e outros nem tanto, se refestelarem em casas deste tipo, a ponto de pratos brasileiros mais tradicionais, como a feijoada, por exemplo, ficarem relegados à segundo plano.
Mas nada, nada mesmo, substitui o prazer de um churrasco com os amigos. Churrasco a dois, por mais romântico que seja o momento ou a ocasião, não combina. Churrasco é pretexto para reunião de amigos, ou o contrário? Uma cerveja bem gelada ou um bom vinho e a conversa flui com naturalidade, picardia e originalidade. Os problemas? Que problemas? Siga a receita, observe onde você se enquadra e desfrute desse momento inesquecível.

Receita de churrasco

Compre a carne que melhor lhe agrada – e que esteja ao alcance de seu bolso – (ela pode ser magra ou gorda, não interessa), o sal grosso e o carvão. Reúna os amigos, bote a cerveja para gelar, faça um vinagrete, uma farofa e um bom braseiro. Não se preocupe com os especialistas em churrasco, eles são muitos e os “conselhos”, a maioria das vezes, contraditó-rios – alguns dizem que a carne tem que ir ao fogo antes e só após é salgada; outros, que ela deve ser salgada pouco antes de ir ao fogo; que carne para churrasco, só gorda; que existe todo um processo na escolha das carnes, particularmente no tocante a sua textura e cor; que os variados cortes de carnes exigem distâncias específicas e tempo de exposição ao brasileiro, e por aí vai. Mas, esqueça tudo, deixe o “aperreio” de lado que o momento é de relaxar e faça assim: coloque as carnes a uma distância prudente do fogo e vá servindo: ao ponto, mal-passada, esturricada, sempre ao gosto do “freguês”, pois quem é você, para impor seu gosto às outras pessoas? Servir carne desidratada é o supra-sumo da deselegância e da falta de bom-gosto. E daí, se seus amigos assim preferem? Com já foi dito: “gosto não se discute, lamenta-se”. Essa é uma ocasião preciosa, o churrasco é só o aperitivo. Por que desperdiçar a concentração num momento de confraternização, com detalhes desse tipo?


*Cleonilson Alves da Silva é economista e gourmet


Em breve